sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

A busca por liberdade pela comunidade LGBT da Rússia



por: Priscilla Castro

Foto: Divulgação (VK)


“Eu me tornei um alvo por ser eu mesmo e, por não me esconder, tive que viver com medo”. O desabafo é de Lyosha Gorshkova, 31, um homossexual russo que atualmente busca asilo nos Estados Unidos, após ter sido perseguido e ameaçado no seu próprio país. “Eu não penso em voltar pra Rússia nunca mais”, confessa.

Morando em Nova York desde 2014, ele aguarda agora uma decisão das autoridades americanas sobre seu pedido de residência nos Estados Unidos. 

Graduado em Ciências Políticas, Lyosha trabalhou como professor na Universidade Estadual de Perm, Rússia, onde ajudou a organizar um centro para estudos de gênero em 2010. Ele conta que foi um dos primeiros a conscientizar as pessoas sobre as questões LGBT na região de Perm, onde ele morava na época. Mas esse trabalho chamou a atenção de grupos homofóbicos e as ameaças, que já faziam parte da vida dele, se tornaram uma realidade. “Eu fui perseguido na rua várias vezes, recebia telefonemas com ameaças de morte e minhas redes sociais foram inundadas de mensagens horríveis”.


Depois de se mudar para um novo apartamento na tentativa de se esconder, Lyosha comprou uma passagem para visitar um amigo nos EUA e nunca mais voltou. “Eu só pedi demissão do meu trabalho depois de que cheguei na América, porque sabia que podia mais ficar muito tempo na Rússia”. Hoje, ele é responsável por um grupo de apoio para cidadãos russos que procuram asilo nos Estados Unidos.

Lyosha compartilhando sua história em Nova York - 02/2016

Lyosha no Orulho Gay, em Nova York - 2016


Lyosha é apenas um de muitos que sofrem com a disseminação do ódio e do medo contra a comunidade LGBT, estimulada pelas políticas preconceituosas do governo russo. Como resultado, governos ocidentais e os defensores dos direitos humanos têm criticado severamente o país, especialmente depois de 2013, quando o presidente Vladimir Putin assinou a lei que proíbe a propaganda de casais não tradicionais em frente a menores de idade.  

De acordo com a Organização Não Governamental ‘LGBT Network’ e especialistas no assunto, a Rússia registrou aumento nos casos de violência depois da aprovação da lei. O país testemunhou o crescimento nos ataques promovidos por grupos e indivíduos contra a comunidade e ativistas LGBT nos últimos dois anos. Grupos homofóbicos usam a lei como justificativa para assediar e intimidar professores e para recorrer à violência física nas situações mais comuns, especialmente em protestos públicos.
Segundo Tanya Cooper, pesquisadora da Human Rights Watch (Patrulha dos Direito Humanos, em tradução livre) para a Rússia e Ucânia, os níveis de homofobia não seriam tão altos se o governo não usasse a situação como ferramenta para consolidar uma base de apoio conservadora. “Eles promovem socialmente o sentimento ‘anti-LGBT’, a intolerância contra esse estilo de vida e as relações homossexuais, como distração para evitar que as pessoas olhem para outros problemas, como os econômicos e sociais”, acredita a especialista. 

Além disso, o controle pesado que o Kremlin exerce sobre a mídia serve como um aliado importante na propagação da homofobia. Em 2016, ainda existem diferenças significativas nos níveis de acesso à internet entre as grandes cidades da Rússia e as áreas rurais, onde as pessoas dependem quase que exclusivamente da televisão. E mesmo os que têm acesso, não procuram necessariamente fontes alternativas porque confiam fielmente na mídia russa. “Essa homofobia é mais artificial, começou como um sentimento criado, muito divulgado pela TV, pelos jornais e em todos os lugares. Quando você ouve algo várias vezes, você começar a acreditar nisso”, acrescenta Tanya.


Licença para Ferir


No relatório “License to Harm” (Licença para Ferir, em tradução livre), divulgado em 2014 pela Human Rights Watch, sobre violência contra a comunidade LGBT na Rússia, foi detalhada a dimensão do problema através de dezenas de entrevistas com pessoas e ativistas LGBT em 16 cidades espalhadas pelo país. A maioria dos entrevistados que disseram ter sido vítimas de violência física ou psicológica, alegaram que os problemas se intensificaram depois de 2013.
O relatório revelou as muitas formas nas quais a violência contra a comunidade LGBT podem acontecer, com entrevistas descritivas de surras, sequestros, humilhações e abusos verbais, incluindo serem acusados de ‘pedófilos’ ou ‘tarados’, seja por grupos homofóbicos ou por estranhos no metrô. Segundo os entrevistados, os ataques acontecem na rua, em bares, cafés, restaurantes e até em uma entrevista de emprego.
Apesar das leis russas contra os crimes de ódio, a maioria das vítimas não denunciam os incidentes por medo de serem assediadas pelos próprios policiais. Nos poucos casos em que foi registrada ocorrência, as vítimas foram acusadas de provocarem os agressores e a investigação não foi feita. Já nos casos em que o crime foi registrado, a ocorrência não aparece como ‘crime de ódio’, mas como crime comum, seja vandalismo ou assalto.  

De acordo com o relatório, apenas três dos 44 casos nos quais as vítimas registraram a ocorrência chegaram a ser investigados. Pelo menos dois dos agressores nesses casos foram condenados, mas as sentenças não foram condizentes com a gravidade dos danos causados às vítimas.

A religião também representa um papel ativo na discriminação contra as pessoas LGBT, tendo alguns líderes da Igreja Ortodoxa Russa discursado publicamente contra homossexuais, reforçando e incentivando os sentimentos já existentes. É comum ouvir padres defendendo que a homossexualidade deveria ser banida a qualquer custo. Um exemplo clássico é o ator e padre Ivan Okhlobystin, que, em 2013, sugeriu que todos os homossexuais deveriam ser queimados vivos.


Discriminação no ambiente de trabalho


Em 2013, Olga Bakhaeva, professora municipal da cidade de Magnitogorsk, foi forçada a pedir demissão do emprego depois de ter defendido um homem homossexual numa rede social. Ela diz que sofreu ameaças, difamações e preconceito tanto por parte da escola onde trabalhava quanto pelas pessoas de fora.

“Tudo começou quando alguém fez um post numa rede social criticando o caso de uma professora que foi dispensada depois de ter se assumido lésbica, e eu fiz um comentário apoiando a professora em questão. Algum homofóbico aleatório viu no meu perfil que eu era professora e começou a me enviar mensagens falando que eu tinha que sair do meu emprego”.

Não demorou muito até que o assunto chegasse à imprensa. Jornalistas telefonavam para a escola procurando por Olga, a fim de ouvir o lado dela da história. Ela conta que esse foi o momento quando ela realmente viu o quão sério o caso havia se tornado. “A situação ficou insustentável. Eu estava sofrendo por todos os lados. A escola me fez limpar os banheiros e me humilhou publicamente, então eu percebi que não poderia ficar segura naquele emprego e pedi minha demissão”.

Olga em evento da comunidade LGBT na cidade de São Petersburgo, Rússia - 2015


Olga decidiu se mudar para a cidade de São Petersburgo logo depois disso e, hoje, aos 27 anos, é uma das ativistas mais presentes nos protestos da cidade. Embora admita que o movimento LGBT na Rússia ainda enfrenta muitos desafios, ela diz que não se arrepende de nada porque agora pode finalmente viver livre. “Voltar a ensinar significaria voltar para o armário e eu não quero mais isso para a minha vida”.


Histórico de violência


A perseguição às pessoas LGBT na Rússia não é uma novidade da gestão de Putin. As raízes da Rússia homofóbica vêm da Rússia Imperial, onde a homossexualidade era punida pelas autoridades religiosas ou pelas milícias. Como a maioria das outras denominações cristãs da época, a Igreja Ortodoxa Oriental fazia uso de critérios religiosos para perseguir gays e lésbicas.

Em 1716, Peter o Grande baniu a homossexualidade nas forças armadas; 16 anos depois, Nicholas I adicionou a nomenclatura de “sodomia” ao homossexualismo, com sentença de até cinco anos de trabalhos forçados na Sibéria.

No entanto, foi sob o regime de Stalin que a homossexualidade foi classificada como doença em nome da proteção dos menores, precedendo a atual lei da administração de Putin. Sexo entre homens se tornou uma ofensa criminal em 1934, também passível de até cinco anos de detenção.

A situação da comunidade LGBT melhorou durante a década de 90 e 2000, quando gays começaram a ser vistos em espetáculos, boates gays foram criadas, o homossexualismo foi oficialmente removido da lista de doenças mentais da Rússia, juntamente com a fundação da ONG “LGBT Network”, a primeira e única organização inter-regional LGBT da Rússia.

O modelo da família tradicional e a força patriarcal, no entanto, continuam a representar o maior lugar na cultura russa moderna. O homossexualismo ou qualquer estilo de vida considerado “incomum” ainda são vistos como uma possível ruptura do sistema.


Onde isso vai terminar?

Mesmo com as barreiras impostas pela lei que bane a propaganda homossexual, ainda é possível encontrar lugares e pessoas dispostas a oferecer apoio e assistência à comunidade LGBT. São Petersburgo é sede de algumas organizações e grupos de apoio.
A LGBT Network russa é uma organização sem fins lucrativos que tem por objetivo apoiar as pessoas LGBT, oferecendo assistência legal e psicológica. Criada em 2006, a ONG oferece uma linha de apoio e um serviço de conversa online para os que precisam de ajuda profissional. A organização também oferece assistência jurídica em alguns casos.
De acordo com a gerente de comunicação da ONG, Svetlana Zakharova, o número de pessoas que procuram assistência aumentou depois que a lei anti-gay entrou em vigor, há três anos. “A violência psicológica é muito difundida. Nós temos um questionário online, no qual perguntamos se os entrevistados sofreram qualquer tipo de violência ou discriminação no ano anterior e podemos ver que os números estão crescendo, chegando a 60% dos que responderam à pesquisa”, diz Zakharova.  
Até o momento, a ONG ajudou mais de mil pessoas, mas nem todos os casos puderam ser resolvidos. “Há muitos casos envolvendo crianças e, embora a maioria deles seja muito triste, os casos geralmente são sem solução porque a criança está sob custódia, então não podemos intervir. Algumas vezes, tentamos apoio do serviço social, mas aqui (na Rússia), eles não são muito eficientes”, acrescenta Zakharova.  

Muitos cidadãos também sentem falta de mais grupos de apoio na Rússia. O professor de inglês Aleksei Mazurov, 33, administra um grupo de lazer chamado “Здесь хорошо” (Aqui é bom) para adolescentes e jovens adultos que querem conhecer outras pessoas e se envolverem em atividades, como estudo de línguas, filmes, culinária e poesia.
Segundo Aleksei, o objetivo é oferecer um ambiente amigável e aberto para aqueles que não encontram apoio em casa. “Os participantes trabalham com a autoestima,o  humor e a habilidade para tomar iniciativa”, explica. 
“A polícia apareceu na nossa última reunião e, após encontrar alguns pôsteres que tínhamos aqui, me levaram para a delegacia, onde fui mantido por muitas horas antes de ser liberado. Eles falaram para o dono do imóvel onde fazíamos reuniões que estávamos fazendo atividades ilícitas, então não podemos mais nos encontrar lá. Mas mesmo com tantos obstáculos, nós continuaremos com o projeto”, assegura Aleksei.

Arte: Thiago Jacques



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