segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

5 coisas "negativas" na Rússia

Hoje faz 79 dias que desembarquei na cidade de São Petersburgo e comecei a encarar essa aventura doida, mas necessária. Como eu já expliquei aqui, vim fazer o primeiro semestre do meu Mestrado em Global Communication and International Journalism. 

Já era de se esperar que eu iria me deparar com muuuita coisa diferente e estranha ao que estou acostumada, como boa brasileira que sou, né? A verdade é que eu me adapto muito fácil às outras culturas e quase nunca sinto saudades de casa, mas aqui o bicho tem pegado de uma forma mais pesada. Primeiro, porque eu nunca fiquei tanto tempo de uma vez longe de casa (já são 11 meses); segundo, porque, muitas vezes, eu me sinto flutuando no planeta Marte. 

Bons tempos em que havia sol na cidade e água no rio. 



Nesse post aqui, eu falei um pouco sobre as minhas primeiras impressões. Acho que pouca coisa mudou na minha cabeça, mas novas opiniões foram formadas nesse meio tempo.

Vou escrever aqui pra vocês 5 coisas com as quais não consigo me acostumar aqui na terra do strogonoff (Mas tem muito mais que cinco, ok?). PS: Lembrando que tudo que vou descrever aqui são as MINHAS experiências pessoas e nada se pode generalizar; conheci exceções em todos os quesitos.

1) Não sorrir – essa é uma das que mais me incomodou logo quando cheguei aqui. 

Ilustração da matéria do Russian Beyond the Headlines


Vou explicar: o russo tem a cultura de não sorrir para estranhos. As vendedoras nas lojas, os garçons, os motoristas, as pessoas na rua quando abordadas para uma informação, as pessoas que vêm te pedir informação, não costumam te receber/abordar com um sorriso no rosto. A regra é falar “Извините” (com licença) ou “Здравствуйте” (olá), dependendo da ocasião, de cara fechada, séria e esperar sua resposta. Até quando você é apresentado por um amigo em comum, é normal que eles não sorriam logo no primeiro cumprimento. Pelo que os próprios russos me falaram, se você sorrir do nada para alguém na rua, pode dar a impressão de que está rindo da cara da pessoa ou está se preparando para pregar uma peça em alguém, ou ainda que tem algum problema mental.

E PIOR: não importa se você sorrir, ele não vai retribuir o sorriso e sua cara vai ficar lá no chão. Lembro que no início eu me sentia triste, e até ofendida, levava muito para o lado pessoal. Mas uma amiga russa me enviou um link que lista 10 motivos pelos quais os russos não sorriem e, acreditem, isso fez eu me sentir muito melhor. Vejam aqui e fiquem chocados.. rsrs! Ah, é em inglês: 

Pode parecer bobagem para alguns, mas isso me afeta MUITO porque somos acostumados com um tratamento completamente diferente. Não que no Brasil nós andemos nas ruas rindo para estranhos em todos os lados, mas a partir do momento que vamos iniciar um diálogo com quer que seja, o normal é abrirmos um sorriso, às vezes até automático, já que vamos olhar no olho da pessoa e trocar informaçõesMas é claro, já vi gente rindo pra mim no primeiro “oi” (tipo, umas duas pessoas :P); e se você vira colega ou desenvolve qualquer laço, aí é risada pra todo lado. 

2) Comida sem sabor – ainda sofro com essa aqui.

A comida russa não é boa. Apesar de haver alguns pratos mais interessantes, como o strogonoff, as panquequinhas e as sopas, a grande maioria praticamente não tem gosto de nada.  Parece que eles pegam a comida crua, jogam na panela, contam 3 grãos de sal e pronto. Falta tempero, falta gosto. Comer arroz é como beber água. E em quase tudo, é preciso acrescentar sal, pimenta ou azeite (que, cá entre nós, falta em MUITO restaurante). A saída tem sido comer quase sempre em casa ou recorrer aos sushis (que são MARAVILHOSOS, bem brasileiros, cheios de cream cheese e coisas malucas nada a ver com a culinária japonesa original), ou às pizzas (que também são gostosinhas aqui e melhores do que na Alemanha, com certeza). 

Comidinha tradicional, sem gosto muito expressivo

"Fast-food" Teremok, rede de lasnchonetes típica da Rússia

Sushiiiii delícia, bem "abrasileirado", cheio de invenção! Amo/sou.


3) Esquema de cobrança nos ônibus – ineficiência total.

A cobradora - foto do "Saint-petersburg.com"


Esse quesito varia muito de acordo com a cidade, então vou falar especificamente de São Petersburgo (porque eu já vi que em Moscou, é diferente!). Bom, a maioria dos ônibus aqui em Peter funciona da seguinte forma: o passageiro entra, paga a passagem para a cobradora ou passa o cartão no dispositivo de cobrança e segue viagem. No entanto, é possível entrar por qualquer uma das três portas, então muitas vezes você e a cobradora não “se encontram” logo no começo. Nesses casos, se você pagou com o cartão e o ônibus estava um pouquinho mais cheio (o que é SEMPRE!), a cobradora vem até você com um aparelho para verificar se você realmente passou o cartão, ou seja, você precisa ficar com ele na mão porque vai ter que passar duas vezes. E, às vezes, demora para que ela chegue até você, então já temos um inconveniente aí. 

Outro problema é que os ônibus estão quase sempre cheios e, mesmo quando não dá nem para se locomover lá dentro, a cobradora precisa andar o ônibus INTEIRO fazendo essa checagem do cartão ou pegando o dinheiro e separando o troco dos passageiros. Agora, imagine: são 18h, o ônibus está lotado, os passageiros mal cabem lá dentro e a cobradora precisa abrir espaço para fazer as cobranças. Eu mesma, nesses “empurrões” para que a cobradora tenha acesso, já caí em cima de velhinhos, já dei bolsadas em crianças, já lasquei o joelho no ferro, e por aí vai. 

É, coitados desses cobradores, que são quase sempre velhinhos e, muitas vezes, se esquecem que já te cobraram. É comum você tem que abrir a bolsa, pegar a carteira, tirar o cartão e passar pela terceira vez! 

Alguns ônibus não têm o cobrador, então o motorista é que faz a cobrança, mas de forma totalmente inversa à usual. O passageiro paga na hora de sair e não na hora de entrar. A saída só é liberada pela porta dianteira, depois que cada um passou o cartão no aparelho de checagem do motorista ou fez o pagamento em dinheiro. Enquanto isso, os passageiros na parada precisam esperar todos os passageiros saírem para, só então, terem acesso às portas do meio e traseira, e conseguirem entrar. Confuso, né? Eu sei! A Rússia é confusa! Rsrs

4) Clima terrível – Não é só o frio, mas também todos os inconvenientes do inverno. 

Tempestade de neve inesperada no início de novembro

Essa não é a minha primeira vez no frio. Entre dezembro de 2006 e fevereiro de 2007, fiz um intercâmbio em Toronto, no Canadá, e peguei MUITO frio, temperaturas de -19, com sensação térmica de -26. Também já passei invernos visitando Espanha, França e Inglaterra e, nesse ano, morei em Berlim, né? Então, eu achava que tava de boa pra aguentar esse friozinho russo, contanto que eu comprasse as roupas certas. Mas não é bem assim. Apesar de eu não ter ainda o cachecol próprio para o inverno e a bota para a neve, o meu casaco é bem quentinho e dá muito bem conta do recado. Mas mesmo se enrolando toda, colocando o capuz de pelos, as luvas, o gorro, ainda fica MUITO difícil passar mais de 10 minutos na rua com o nariz e a boca congelando. No meu caso, o vento chega a causar dor na pele como se estivesse queimando.

Sem contar as rachaduras provocadas pelas baixas temperaturas e a secura nos ambientes fechados, com o aquecedor no extremo, o que é uma característica insuportável do inverno.  Você CONGELA na rua, mas se entrar no ônibus, no mercado, na loja, na estação de metrô, precisa tirar gorro, cachecol, luvas e, muitas vezes, até o casaco, para não derreter e formar uma poça de ser humano no chão. Imaginem que saudável esse choque térmico durando meses e meses.

<3

Outra coisa muuuuito complicada é quando as temperaturas sobrem um pouco e a neve começa a derreter. As calçadas e ruas ficam praticamente pistas de patinação no gelo e, se você não tiver a bota último lançamento da NASA 2048, você vai cair. Ou pelo menos, escorregar. Ah, vai! Quem me segue no instagram está acostumado a me ver andando que nem um pinguim, beeem devagar, na tentativa de me equilibrar.

E o perigo das estalactites de gelo? Conhecem? São pedaços de gelo grandes e pesados que se formam nos telhados dos prédios/casas, e ficam pendurados podendo cair a qualquer momento. A recomendação é caminhar o mais longe possível do imóvel, mais próximo à rua, porque se um desses cai em você, ba-bye. Todos os anos, pessoas morrem vítimas das estalactites. Medo!

Tipo isso, só que 7x maior, 20x mais pesado e caindo lá de cima :)


Dizem que o pior ainda está por vir, afinal ainda não é inverno teoricamente, right? De acordo com as nossas queridas estações do ano, o inverno no Hemisfério Norte só começa oficialmente dia 21 de dezembro e termina dia 21 de março. Estamos ainda no início de dezembro e eu já me sinto congelando aos poucos nas ruas da cidade. Mas a verdade é que esse ano de 2016 parece ter sido um dos piores outonos em muito tempo. Pelo que os russos falaram, há anos não se via tempestades de neve em pleno mês de novembro como tivemos esse ano, ou seja, o bicho vai pegar demais daqui pra frente!!

Pista de patinação no gelo ou a calçada daqui de casa?

Quando a neve derrete e fica essa lama linda



5) Encaradas eternas e desconfortáveis – everytime, everywhere, everyone. Não me acostumarei jamais!

Não importa o lugar, a idade, nem o sexo da pessoa, ela vai te encarar de forma totalmente indelicada pelo tempo que ela julgar necessário. Mas percebam, não estou falando de homens querendo me paquerar; estou falando de crianças, velhinhas, adultos, no trem, na fila, no mercado. Eles sentam na sua frente e olham pra você por minutos sem desviar o olhar, como se estivessem vendo um alienígena de 4 cabeças! Você olha pra um lado, pro outro, mostra que está desconfortável, mas não importa. Rsrsrs Uma vez uma menina de uns 7 anos sentada de frente pra mim no metrô me olhou por uns 3 minutos (eu marquei) e não virava a cabeça por nada! Hahahaha Medo!!! E se for no intuito de paquera, então? Noh, aí são olhares fuziladores estilo "passando na frente da obra". Rsrs Isso porque eu não sou nada exótica, deixa vir as morenaças índias gatas pra ver como vai ser! 

No próximo post, trarei a continuação da lista de coisas russas que me marcaram nesses 3 meses.

Beijos,
Pri.

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