domingo, 2 de outubro de 2016

A Alemanha e o meio ambiente

O meio ambiente é um tema ainda muito subestimado no Brasil. A maioria da população ainda não entende a importância da separação do lixo, do não desperdício. Minha mãe sempre me ensinou a não jogar lixo no chão, mas apenas. Nunca tivemos costume de fazer reciclagem ou de desligar a água enquanto não usamos ou de evitar usar o carro. Então, a minha preocupação pelo meio ambiente era “média”. Eu sabia que devia fazer diferente, mas não era minha prioridade.

Isso perdurou até os meus 20 anos, quando, na minha época de repórter do jornal Tribuna do Norte, no Rio Grande do Norte, tive a oportunidade de fazer uma matéria no Rio Potengi, mostrando a poluição daquele espaço. Alugamos um barquinho e fomos nessa. Ver o rio mais importante do Estado naquele estado de poluição, sofrendo com despejos de produtos químicos, foi um marco nessa minha “atuação ambiental”, digamos assim. Lembro que o mau cheiro era horrível, havia espaços em que a água era totalmente verde, as plantas cheias de sacolas plásticas, praticamente não havia nenhum peixe. Para quem estiver interessado em ler a reportagem, pode clicar aquiComecei a estudar mais sobre o assunto e a entender a URGÊNCIA em mudarmos radicalmente nossas ações.

Foto: Kevin Gill| Flickr


Mas não é fácil fazer sozinha. O ditado do “pelo menos estou fazendo a minha parte” nem sempre é suficiente!! Além do desinteresse pelas pessoas no dia-a-dia, é extremamente difícil trabalhar no Brasil como jornalista ambiental. A mídia oferece pouquíssimo espaço para esse tipo de pauta. Para quem ainda não sabe, eu trabalhei por quase 1 ano como jornalista do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) no Brasil e era sempre uma luta emplacar uma pauta nos grandes veículos de comunicação. E eu vinha de redação e sabia muito bem como as coisas funcionavam. Quantas vezes recebemos sugestão de pauta ambiental e já classificávamos como “pautas ecochatas”, “pautas sem audiência”. Se não fosse algo MUITO GRANDE, nós nem passávamos para a chefia de reportagem.

Essa situação se deve ao fato de que o Brasil não é um país que investe nesse tipo de educação. Na Alemanha, a realidade é outra. Não vou dizer que todo mundo aqui está preocupado com o meio ambiente porque seria uma mentira. A cidade de Berlim, por exemplo, não é limpa, muita gente joga lixo na rua, principalmente papel e bitucas de cigarros, o que ocasiona por diversas vezes, alagamentos na época das chuvas. Mas ainda assim não é a maioria das pessoas e há lixeira em literalmente cada esquina.

Além disso, como o governo investe (e muito) em programas ambientais e conscientização ambiental desde o jardim de infância, é normal a população adotar certos costumes que fazem toda a diferença para o meio ambiente. Inclusive, esse foi o meu tema do projeto de pesquisa quando apliquei para a Bola de Pesquisa da Chanceler Alemã (German Chancelor Fellowhip), conforme falei nesse post aqui

Gente, é óbvio que eu não vou explicar nesse post todas as ações ambientais do governo alemão e como funcionam, até porque não é essa a minha proposta. Eu sempre procuro falar das MINHAS experiências pessoais, tentando “colar” o mínimo possível de sites oficiais, pois gosto de passar o que eu vejo e o que eu vivo e não apenas coisas que procurei na internet. Pelos 8 meses que fiquei aqui e por ter pesquisado bastante para o meu projeto, tenho propriedade pra falar esse pouquinho pra vocês.

A Alemanha é considerada internacionalmente um dos países pioneiros na proteção do clima e no aumento do uso de fontes alternativas de energia. Além disso, a Alemanha é também um país muito bem educado e avançado em ações em prol da produção e consumo sustentáveis, o que está intrinsecamente ligado à emissão dos Gases de Efeito Estufa (GEE). Em 2011, foi o primeiro país industrializado a decidir cessar o uso de energia nuclear. Ainda no escopo global, o governo federal se esforça pela proteção do meio ambiente, desenvolvimento de estratégias favoráveis ao clima e a cooperação com o setor energético.

Foto; Tecnoblog

Alguns exemplos mais concretos de pequenas ações do dia-a-dia do alemão em prol do meio ambiente:

SEPARAÇÃO DO LIXO

A maioria dos prédios em Berlim (não vou dizer todos porque não fui em todos os prédios da cidade, né?!) tem vários tipos diferentes de lixeira para a separação do lixo. Geralmente, são divididos em: papel; vidro verde; vidro marrom; vidro branco; orgânico; “restos” (o que não se enquadrar nas categorias anteriores pode ser misturado e jogado nessa lixeira que, geralmente, é a maior). Em alguns bairros, o gari pode se recusar a levar o lixo se não estiver separado corretamente e o prédio ainda leva uma multa bem pesadinha, que todos os inquilinos devem dividir. Aqui onde eu moro atualmente não tem muito controle não. Eu sempre tento separar do melhor jeito, mas já vi papelão na caixa de “restos”, orgânicos na de papel, etc. Acho que depende muito da região da cidade, não sei como funciona exatamente. Ah, e claro que isso vale também para residências.

Foto: Blog Fala Alemôa.


EMBALAGENS RETORNÁVEIS

Já falei algumas vezes nas redes sociais e fiz um vídeo que foi bem comentado. Algumas garrafas de vidro, garrafas de plástico e também as latinhas são retornáveis, portanto não jogue NADA FORA. O processo é bem simples. Para as garrafas de plástico e as latinhas, basta levá-las em qualquer supermercado e colocá-las na máquina (uma por uma). Ao final, basta apertar no botão para avisar que concluiu e você vai receber um papel com o valor total que você vai ter de desconto na compra do mercado. Cada latinha vale 25 centavos e cada garrafinha vale 15. Para as garrafas de vidro, o processo é um pouco diferente e eu nunca fiz a troca, então não tenho certeza do valor, mas também valem dinheiro e você pode trocá-las diretamente nas lojinhas de conveniência (chamadas de “Spätkauf”) e pegar desconto na nova cerveja.


CONSCIENTIZAÇÃO INFANTIL

‘Kitas’ são os jardins de infância aqui da Alemanha. Conheço algumas brasileiras que trabalham em Kitas por aqui e já me falaram que, dentre os temas que costumam conversar com as crianças, já está incluído o meio ambiente. As pedagogas ensinam os pequenos a separar o lixo, explicam a importância da reciclagem, entre outras coisas. O Kita Cavalo Marinho, por exemplo, desenvolve ações diretas para que crianças acima de 5 anos tenham contato e respeito ao meio ambiente.

A educadora Elaine Patzwaldt explica como funciona.

·         Como as crianças têm contato con meio ambiente nos Kitas? É ensinado algo de especial como a separação do lixo, economia de água e luz..?

Não posso falar generalizadamente, pois essa questão não é de obrigatoriedade nos Jardins Infantis. Existe uma linha de direção em uma forma de Lei para a educação em Berlin (Berliner Bildungsprogramm), onde consta que as crianças devem ter um contato inicial com a natureza, técnica e meio ambiente. Nós do Cavalo Marinho temos três programas direcionados ao que você me perguntou:
                  - Em relação à separação de lixo temos o Projeto chamado BSR (Empresa de Limpeza de Berlin), que basicamente ensina de forma lúdica como devemos separar o lixo, porque devemos separá-lo, sobre reciclagem e, principalmente, como evitar o lixo.
                  - A economia de água é um tema que tratamos diariamente e tentamos apenas sensibilizar as crianças para o desperdício da mesma.
                  - O projeto sobre Energia chamado Sonnenkinder trata da questão das novas e velhas formas para se obter a luz que temos em casa. Este foi um projeto que nossa educadora Alema, Ute Schmidt, apresentou ao time após um seminário chamado Leuchtpol da empresa de energia "e-on". O projeto quase gratuito tinha por intenção levar estes conhecimento sobre meio ambiente e energia solar para pelo menos 10% dos Kitas em toda Alemanha.

2) Isso é regra da educação do país ou parte dos próprios professores?

Ainda não é uma regra generalizada para a educação Infantil. Existe o Estatuto BBP, em Berlim, que contém algumas coisas, mas não nesta direção ainda. No nosso caso, partiu de uma colega que se interessa pelo tema, passou para o time, nós vestimos a camisa do projeto e eles agora fazem parte de nosso Conceito Pedagógico.

3) Como é a reação das crianças? Eles se interessam? O que eles mais gostam de fazer?

Todos os projetos são preparados e executados em forma lúdica, ou seja, com movimentos e brincadeiras, que atraem o interesse e a curiosidade das crianças com os temas, além de diverti-los bastante, principalmente com o Projeto da BSR, pois temos um mini caminhão de lixo que eles amam!!

Vale ressaltar que estes projetos são realizados com crianças a partir dos 5/6 anos, porém os mais pequeninos aprendem muito com eles também.

DIMINUIR EMISSÃO DE GEE

Não sei se no Brasil já existe essa opção (pode ser que sim, mas nunca vi): Quando você compra uma passagem de ônibus para outra cidade/estado/país, há a opção de pagar 2 ou 3 euros a mais (dependendo da empresa e da distância) para diminuir a emissão de gases de efeito estufa para a atmosfera. Bacana, né?

Claro que todas essas ações do governo alemão não são possibilitadas apenas por uma questão cultural, mas também pela questão econômica, afinal o país tem verba para investir nesse setor, enquanto o Brasil, no momento, não teria (sabemos que isso é uma informação TEÓRICA, já que, na prática, nossos políticos nos mostram que o Brasil tem muito mais dinheiro do que pensamos). Além disso, a Alemanha é um país MUITO mais idoso, que teve muito mais tempo para se preparar, que tem mais tecnologia e afins. Mas se você ainda é do tempo em que separar lixo não é importante e jogar um papel na rua não faz mal a ninguém, por favor, corra para a biblioteca e vá estudar. E se você é um dos que acredita que o aquecimento global é uma mentira, você precisa urgentemente rever seus conceitos.

Obrigada a todos que chegaram até aqui.

Beijos de consumo sustentável,

Pri.

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