quarta-feira, 27 de julho de 2016

E o clima na Alemanha depois dos ataques?

Muita gente me perguntou essa semana sobre o clima em Berlim depois da recente onda de ataques aqui na Alemanha. Bom, eu vou falar um pouco da minha visão e da minha experiência pessoal nesses últimos dias, o que eu vi e senti por aqui. Não gosto de ficar pesquisando tudo que eu vou postar, porque a minha proposta é falar como alguém que está vivendo o momento pessoalmente. Se for pra pesquisar, vocês entram no Google e pesquisam, correto? Portanto, é importante destacar que eu não conversei com todos os moradores de Berlim, que eu não conheço pessoas de todas as nacionalidades e que eu vou falar sobre o que eu tenho visto nos meus grupos de Facebook, nas minhas conversas pessoais e nos locais que eu frequento na cidade.




Para quem não sabe, em menos de 10 dias, aconteceram quatro ataques em diferentes cidades do país e, embora o Estado Islâmico tenha reivindicado a autoria de alguns deles, eu não sei direito se foram motivos terroristas ou apenas psicopatas perdidos no mundo. No dia 18 de julho, um adolescente afegão armado com um machado e uma faca feriu quatro passageiros de um trem antes de ser morto pela polícia na cidade de Würzburg, no sul da Alemanha. No dia 22, um alemão de origem iraniana entrou em um shopping na cidade de Munique, sul da Alemanha, e disparou tiros pelo local, matando 9 pessoas e deixando 16 feridos, suicidando-se em seguida. No dia seguinte, eu li em uma reportagem alemã que, em outra cidade do país, um homem armado com uma faca tentou atacar pessoas na rua, mas ninguém ficou ferido. No dia 26, recebi de uma amiga uma reportagem informando sobre a Explosão contra festival de música na cidade de Ansbach, sul da Alemanha, que  deixou 12 feridos e resultou na morte do autor do atentado, que era sírio.

Ataque com machado no trem em Würzburg - Foto publicada no site Terra
Ataque no shopping em Munique - Foto publicada no site da Revista Veja


 Apesar de não ter ocorrido nenhum ataque específico aqui na capital (que eu saiba), o clima de medo e insegurança se espalhou por todo o país (na verdade por toda a Europa, pois já ficamos perturbados depois do ataque em Nice, França) e muita gente ficou assustada por aqui. No grupo Brasileiros em Berlin no Facebook, pessoas se perguntavam se iriam curtir a Parada Gay nas ruas; em outro grupo da Alemanha, tinha gente confessando que estava com medo de viajar de trem; eu mesma recebi mensagem de amigas falando que não iriam sair no final de semana, pois estavam receosas e preferiam ficar em casa.

Não quero de forma alguma soar contraditória nesse post, mas essa situação é uma faca de dois gumes. Por um lado, eu me considero uma pessoa muito prática e não admito que cortem minha liberdade. Se você for ficar com medo de estar no lugar errado, na hora errada, é melhor você nem sair de casa. É importante ter cuidado? Claro. Sempre. Mas como? O que fazer para evitar estar dentro de um trem quando chegar um louco dando machadadas nos passageiros? Como imaginar que na hora e no dia que você estará no Shopping, um maluco entrará atirando por todos os lados? É impossível adivinhar. Ou se tranca em casa ou sai e esquece, concordam?

Não sei como está sendo feito o controle da entrada de estrangeiros no país, se algo mudou, se ficou mais rígido, mas no geral, eu tenho notado as ruas do mesmo jeito de antes, a mesma quantidade de policiais, os trens continuam lotados (afinal, é VERÃO), os parques continuam cheios, os eventos em locais públicos continuam acontecendo. Portanto, um dia após o ataque em Munique, embora um pouco abalada, eu fui assistir ao desfile da Parada Gay, porque é algo que eu gosto e que eu já estava programando fazer há algumas semanas. E foi muito bom, tinha muita polícia no local, o clima estava maravilhoso e eu não vi UMA discussão sequer. Eu teria me arrependido de verdade caso não tivesse ido, porque não podemos viver no medo, na incerteza, na insegurança. Segura na mão de Deus e vai viver sua vida.

Clima alegre e descontraído na Parada Gay de Berlim




Além disso, como boa brasileira que sou, acho inadmissível ter saído de um país violentíssimo, onde somos obrigados a viver praticamente como prisioneiros, com nossas grades e portões a sete chaves, nossos carros sempre fechados, nosso constante medo de andar na rua, para morar em um país com uma boa segurança, que te permite caminhar à noite sozinha, que te permite viver sem muros, que te permite visitar um parque bonito durante uma noite de verão, e fazer a mesma coisa da qual eu tanto quis fugir: viver com medo.

Por outro lado, o clima desses ataques é bem diferente do tipo de violência que acontece no Brasil, onde os crimes geralmente são passionais ou por causa de drogas ou dinheiro. Aqui, é muito perturbador saber que alguém pode querer te matar porque você é estrangeira, porquê você tem uma religião diferente, ou apenas porquê você está no meio do caminho de um louco que quer agir em prol de uma ideologia estúpida e sem sentido.

Outro dia, eu saí da academia normalmente para ir pra casa e percebi que algo estranho estava acontecendo. Parte da rua estava fechada, havia muita polícia no local e um helicóptero estava estacionado em pleno asfalto. Como sei que os policiais aqui não são os mais amigáveis do mundo, achei melhor nem perguntar nada e fui embora curiosa com o que seria aquilo. Quando cheguei em casa, li que a polícia havia encontrado uma bomba subterrânea da 2ª Guerra Mundial e que isso acontece muito frequentemente por aqui, mas que ninguém liga muito, já se acostumaram. Rsrs Parece que existem várias bombas enterradas sob Berlim, mas com baixíssimas chances de explosão. Que louco, né? Eu ia ficar no mínimo preocupada se soubesse que tinha uma bomba em baixo do meu prédio ou de qualquer lugar.

Portanto, não vou dizer que estou saindo de casa linda e loira sorrindo aos 4 cantos, porque no fundo a gente fica com um receio. Eu apenas me recusei a viver dele. O que eu posso dizer é que a Alemanha é um país que investe muito em segurança e eu confio no esquema de inteligência daqui. Claro que nem tudo pode ser sempre previsto, mas as coisas aqui são eficientes e, independente de tudo, eu ainda me sinto bem mais segura do que em Brasília, onde eu morava. Estou aproveitando meus dias de verão nesse país maravilhoso, que eu ainda estou conhecendo. E continuarei fazendo isso, enquanto der. Espero que esses ataques tenham cessado e que os alemães e estrangeiros que aqui vivem não precisem viver do medo.


Luz para todas as vítimas e paz para o mundo.


Priscilla Castro.

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